Nos últimos anos, Felipe Santos Silva, que também se apresenta como Erika Hilton (1), tem usado de sua posição política como deputado federal para intimidar politicamente várias mulheres através de processos. Uma dessas mulheres é a designer Isabella Cepa, que acaba de ser reconhecida na Europa como refugiada política. Ela pediu abrigo em outro país por causa dessa perseguição.

O que despertou o interesse de Felipe/Erika contra Isabella? Em 2020, quando Felipe/Erika foi eleito vereador em São Paulo, os jornais disseram (2) que uma mulher havia sido a vereadora mais votada. Isabella, ao comentar as notícias, disse que “a mulher mais votada é homem”.

Aqui devemos contrariar a afirmação de Isabella. O que aconteceu foi que a pessoa mais votada era do sexo masculino, um homem que alega ser mulher. É péssimo que qualquer homem seja considerado mulher; e que o sexo das pessoas seja ignorado é ruim por diversos motivos: atrapalha estatísticas, o avanço das mulheres em cargos políticos, os direitos das mulheres em si. É claro que nada impede que um homem se vista com roupas consideradas femininas, que passe por procedimentos estéticos feminilizantes, que se relacione com homens e/ou mulheres, que module sua voz para que pareça mais feminina, etc. Nada disso importa. O que queremos discutir é a misoginia (nem tão) oculta na ideia de que, ao fazer essas coisas, um homem se torne uma mulher. Ser mulher é ser uma pessoa adulta do sexo feminino que se comporta de qualquer modo, ou que tem qualquer aparência. Não é ser uma pessoa de qualquer sexo que se comporta de um modo específico ou que tem uma aparência específica.

Que isso não possa ser discutido é um absurdo. Que um político persiga as mulheres por contrariá-lo é repugnante. É como assistir a um filme em que as protagonistas são atacadas, vítimas de uma grande injustiça, e têm elas mesmas o ônus de desfazer a desigualdade. Homens não são mulheres, somos de sexos diferentes; quem afirma o contrário age contra os direitos das mulheres, e vai se envergonhar no futuro. As pessoas não estão sendo inocentes quando afirmam que um homem pode ser uma mulher, elas estão sendo coniventes com a mentira, e estão fazendo isso às custas das mulheres.

Também queremos falar do que vimos em comentários aqui e ali sobre o caso de Isabella. O fato de Isabella ser branca tem sido mencionado como se, por si só, fosse ruim. Como se estivesse sob o controle de Isabella ou como se sua cor tivesse algo a ver com sua condição de refugiada. Que fique claro: ruim não é ser branca (ou branco), é ser racista, e as duas coisas não são sinônimos. Mais que isso, independente do que qualquer pessoa pense sobre Isabella, acusá-la de “ser branca” é uma estratégia nojenta e antiga de desmobilização de mulheres.

Embora a denúncia contra Isabella no Ministério Público de São Paulo tenha sido feita com base na Lei do Racismo, o enquadramento como “fobia” é uma equiparação ao racismo feita pelo STF em 2019: é um puxadinho, um improviso até que o Congresso legisle sobre o assunto. No entanto, não é possível equiparar injúrias raciais — que envolvem termos pejorativos e degradantes dirigidos a alguém com base em raça e/ou etnia — à ação de apontar corretamente que uma pessoa é do sexo masculino. São duas coisas diferentes.

Não existe nenhuma acusação de caráter racial contra Isabella. Quem usa a raça de modo a abafar a movimentação de mulheres, ou para justificar que mulheres sejam vítimas de misoginia, age diretamente contra mulheres e contra o feminismo.

Lembrem-se que, do mesmo jeito que o Movimento Negro não tem obrigações com os direitos das mulheres (não tem foco na legalização do aborto, por exemplo; também não estão defendendo mulheres dos homens que alegam ser mulheres), o Movimento Feminista não tem de ter nenhum tipo de obrigação ou foco racial. O foco do Movimento Feminista é o ѕєxο. Não se esqueçam desse fato, ou vocês serão vítimas fáceis para esse tipo de chantagem, chantagem que exige trabalho feminino mas não oferece nada em troca.

Tendo esses apontamentos em mente, mesmo cientes de que não há muito que possamos fazer, prestamos nossa solidariedade a Isabella Cepa. Também nos solidarizamos com Karen Mizuno, processada por Felipe/Erika após fazer uma piada sobre o fóssil Lucy, uma mulher que viveu milhares de anos atrás (3). Nos solidarizamos com todas as mulheres perseguidas por não se dobrarem à mentira atual, de que homens podem ser mulheres se assim declararem. Somos poucas voluntárias e dispomos de pouquíssimos recursos, mas somos feministas e acreditamos no avanço das mulheres através da educação.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, sugeriu ontem que o processo contra Isabella seja arquivado. Felipe/Erika publicou uma nota (4) deixando claro que não vai parar, que continuará buscando que Isabella seja punida por não chamá-lo de mulher.

(1) https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/SP/2/250000078358/2016/65790

(2) https://archive.fo/1b9QF
https://archive.fo/dwvKo

(3) https://pt.wikipedia.org/wiki/Lucy_(f%C3%B3ssil)

(4) https://archive.fo/LBMM8

A mulher mais votada do Brasil é homem?
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