Nesses primeiros meses de 2026 muita coisa aconteceu.
No Brasil, a estudante Isadora Borges de Aquino foi processada pelo Ministério Público Federal, tendo como assistente de acusação no processo o deputado Felipe Santos, que também se apresenta como Érika Hilton. Isadora venceu. Felipe/Érika acionou novamente o Ministério Público e agora está processando o comunicador Carlos Massa, que também se apresenta como Ratinho. Isabella Cêpa, que também foi processada por Felipe/Érika, e também venceu, está respondendo a um novo processo aberto pelo MPF. Isso é perseguição política.
Na França, a jornalista Dora Moutot está sendo processada pelo prefeito Nicolas Cau, que também se auto identifica como Marie Cau. Como explicamos em nosso Manual de Redação e Estilo, o sexo é um dado objetivo para se referir a homens e mulheres, e o que chamam de “gênero” é uma palavra-chave para falar do comportamento humano. Qualquer homem que afirma ser mulher (e exige ter os mesmos direitos que as mulheres) está afirmando acreditar na mudança de sexo, que é um elemento fixo na natureza humana. Os seres humanos podem mudar de comportamento, se não acreditássemos nisso, não seríamos feministas. Mas é impossível mudar de sexo. Afirmar-se de outro sexo é, então, uma crença sobrenatural.
E para que esses processos ocorram, parte-se do princípio de que alguém que não compartilha da mesma crença que a parte ofendida está cometendo um crime. Quem não compartilha da crença sobrenatural de que é possível mudar de sexo estaria cometendo “discurso de ódio” e portanto poderia ser criminalizado. A proposta parece saída de um estado religioso e totalitarista, e deveria ser ultrajante para todos os que acreditam numa democracia e dizem apoiá-la.
Outros acontecimentos foram dignos de atenção. Em janeiro, um homem travestido assassinou a facadas uma mulher, mãe, que segurava seu filho no momento em que foi atacada. A Globo e a CNN deram a notícia sem o nome do assassino, e sem nenhuma menção ao fato de que era um homem travestido. A omissão é proposital, e torna impossível qualquer pesquisa a respeito do assunto. Se um feminicida é chamado de mulher, então não houve misoginia, não houve crime de ódio.

A omissão também é hipócrita, porque sabemos que jornalistas e repórteres não perguntam “você se identifica com o seu sexo?” a todas as pessoas envolvidas em crimes, ou mesmo entrevistadas. Os jornalistas inferem o sexo de todas as outras pessoas, e inferir o sexo é o mesmo crime de que essas mulheres estão sendo acusadas.
Temos ainda uma mudança de linguagem que é evidente e proposital. O feminicídio cometido por um travesti teria sido noticiado pelo G1, em 2015 escrito no masculino, citando o nome verdadeiro e o nome com o qual ele se apresenta. Sem omissões e sem esconder que foi um homem.
Em fevereiro, um advogado foi atacado por um homem travestido no Maranhão. O agressor usou uma garrafa quebrada para rasgar o rosto da vítima. No vídeo estava claro que o agressor, cujo nome a reportagem não revelou, era homem. Então acharam por bem deixar claro que apesar de usar vestido e peruca, o agressor-sem-nome não “se identificava” como travesti.
Ou seja, o assassino feminicida que está travestido é simplesmente mulher, o homem travestido agressor não é nem mesmo travesti. Essas coisas não são informações, são mentiras e omissões.
Dia 10 de fevereiro, no Canadá, um rapaz de 18 anos assassinou a mãe, o irmão de 11 anos e abriu fogo na escola secundária de Tumbler Ridge, matando outras seis pessoas antes de se suicidar. O assassino foi inicialmente descrito como “uma mulher, de cabelo marrom, usando vestido”. Alguém deve ter soado o alarme em seguida e os jornais logo se debateram sobre a identidade dele, seria uma mulher? Seria um homem? Era um homem que alegava ser mulher. Acabaram se referindo a ele usando o termo fantasioso que geralmente usam, para identificá-lo como travesti.
Seis dias depois, nos EUA, um homem abriu fogo em um rinque de hoquei. Ele matou a ex-esposa, o filho deles e feriu outras pessoas, incluindo o sogro (que morreu posteriormente), antes de se suicidar. Quando os repórteres chegaram na cena, a filha que havia sobrevivido estava dizendo a eles algo como “meu pai atirou contra a multidão, ele é doente da cabeça”. Frente à imagem encantadora do assassino, Robert Dorgan, e o relato de sua filha, eles não tiveram escolha a não ser dizer que ele era homem. Ou talvez tenha sido por sua tatuagem imensa com o símbolo da SS, não temos certeza. O motivo não importa, eles titubearam ao vê-lo.

Os dois artigos, que tratam esses homens como se fossem “um tipo de mulher’, estão protegidos de edições na Wikipedia. Talvez para evitar que alguém mencione com todas as letras que eles eram homens, e que alegavam que não eram homens.
Dois fatos conhecidos devem ser mencionados. O primeiro é que mulheres não costumam se suicidar com arma de fogo. O segundo é que dificilmente cometem esse tipo de crime. As duas coisas são muito características da violência masculina.
O “The Violence Project” compilou dados de massacres nesta tabela, de 1966 a 2025, e concluiu que 98% deles são crimes masculinos, o que faz com que qualquer inclusão de dados errados impacte enormemente nas estatísticas de mulheres. Ainda assim, eles nos informam que os assassinos “se identificam como homens”. Eles não se identificam, eles são. E mesmo que afirmem o contrário, esses crimes não são das mulheres. Mas têm sido noticiados e possivelmente incluídos em estatísticas como se fossem femininos.
Voltando para o Brasil, no dia 10 de fevereiro o jornal Metrópoles anunciou que 4 travestis haviam aterrorizado as mulheres na penitenciária feminina Colméia (no Distrito Federal). O que parecia um pesadelo era muito pior: no dia 22 de fevereiro, o jornal revelou que 86 homens estavam presos na Colméia. Desses 86, 16 eram estupradores. A Revista Oeste também cobriu o assunto e ambos os veículos optaram por usar linguagem fantasiosa, dificultando a compreensão e dando lugar à interpretação de que algum travesti que se diga mulher seria, de fato, uma mulher. De que existiria o “homem travestido que é mulher de verdade”. Nós vamos continuar repetindo que isso não existe. Quem acredita na mudança de sexo tem uma crença sobrenatural.
O problema é muito evidente. Se qualquer homem pode se identificar como mulher, ou como travesti (pois segundo a mídia, militantes e políticos, o travesti é um tipo de mulher), então não existe “travesti fake”. Essa auto-identidade não pode ser questionada, isso seria crime. O mesmo crime que teriam cometido Isabella Cêpa, Isadora Aquino, Dora Moutot e Carlos Massa / Ratinho.
Dos 86 homens que foram transferidos para a Colméia, 85 deles alegaram que eram mulheres só após o começo do processo criminal. Apenas 1 já alegava não ser homem antes de ser preso. Este é um dado interessante, mas que não prova que esse homem seja uma mulher. O que ele nos mostra é que basta que 1 homem tenha direito a essa mentira para que todos os outros possam ter direito também. Acredito que podemos pular os motivos pelos quais a inclusão de homens numa prisão feminina viola os direitos humanos das mulheres, mas a Constituição veda, e tanto a lei 12.121 quanto a lei 13.869 reforçam o caráter da separação por sexo.
Para além de tudo isso, o relatório da SENAPEN mostra que, de Janeiro até Junho de 2025, dos 15777 homens presos no Distrito Federal, 645 foram presos por estupro e estupro de vulnerável. No mesmo período, o total de mulheres presas por esse tipo de crime foi 1. Se esses 16 homens tiverem entrado na Colméia junto a esta mulher, durante o primeiro semestre de 2025, a estatística de estupros cometidos por mulheres terá subido de menos 0.1% para 2,5%, considerando que o número de presas no período foi de 678 mulheres. Já o número de estupradoras teria aumentado de 1 para 17. Nós não sabemos quando foi que todos esses homens entraram na prisão feminina, o que sabemos é que em 2023 eram “apenas” 19 e agora são 86, um aumento de mais de 352%. E essa sucessão de erros acontece inicialmente por um truque linguístico, no momento em que a palavra “homem” pode significar “mulher” e a palavra “trans” se torna um termo guarda-chuva para qualquer um que queira mentir o próprio sexo.
Tudo isso nos leva aos últimos acontecimentos: a PL da Misoginia e a Felipe/Erika assumindo a presidência da Comissão de Mulheres.
Sobre a Comissão, a primeira coisa a se dizer é que se fosse uma Comissão de Travestis, eles jamais aceitariam que uma mulher fosse a presidente. Isso deve ser ressaltado não por relevância, mas porque ninguém questionaria o suposto direito desses travestis por “representatividade”. Mostra-se que já de princípio existem dois pesos e duas medidas. Mas a questão central é que Felipe/Érika tem interesses opostos aos interesses das mulheres. Qualquer homem que diga ser mulher ou travesti ou não ser homem, e por essa razão exija usufruir de direitos e espaços duramente conquistados pelas mulheres, está contra elas.
O PL n.6194/2025 é a prova mais recente disso.

O projeto é de autoria da Deputada Ana Pimentel, do PT (MG), que incluiu a auto-identidade de sexo através da afirmação.
Esse texto é um escárnio com as mulheres brasileiras. Primeiro porque define mulher como qualquer pessoa que assim se afirmar. Segundo porque não define o que seria “gênero”. Terceiro porque não diz quem são esses outros que podem se afirmar do “gênero feminino”. Quem seriam “pessoas não binárias”? De qual sexo? Qual o parâmetro objetivo para identificá-las?
O projeto de Ana Pimentel acabou sendo retirado da pauta do Congresso. O que seguiu adiante, aprovado por unanimidade no Senado e encaminhado ao Congresso, foi o PL 896/2023, de Ana Paula Lobato (PSB-MA) e Soraya Thronicke (Podemos-MS), que define misoginia como “conduta que exteriorize ódio ou aversão a mulheres” por sua “condição de mulher”. Autora e relatora do projeto se apressam a esclarecer que a defesa das mulheres não é “ódio aos homens”, mas uma “defesa da família”. Levando em conta que homens podem, com permissão estatal, mentir o próprio sexo em documentos oficiais com a desculpa da “identidade de gênero”, a “condição de mulher” continua sendo uma categoria aberta a inclusão de homens.
Nos últimos dez anos, implantou-se no Brasil a ideia de que o reconhecimento (legal e individual) de autoidentidades subjetivas seria uma das coisas mais importantes para os direitos humanos. Isso não é só uma bobagem, algo desnecessário para avançar com direitos humanos, como também põe em jogo os direitos femininos, dado que homens podem alegar ser mulheres. As meninas do nosso país não precisam ter nenhuma “identificação com gênero” ou “reconhecimento de identidade”, é só perguntar às mais de 300 mil que são engravidadas todos os anos, muitas sendo vítimas de estupro de vulnerável. Vão às mães de até 14 anos, aquelas que pariram mais de 13 mil bebês em 2023 e perguntem a elas se elas “se reconhecem com o gênero feminino”. Perguntem a elas se gostariam de dividir o banheiro com homens travestidos de todas as idades que “se reconhecem no gênero feminino”, ou se elas preferem que seja exclusivo para as mulheres.
As mulheres e meninas não “se reconhecem no gênero feminino”, elas são do sexo feminino, e são discriminadas por esse motivo, não por algum delírio identitário ou crença sobrenatural. A prova é que sofremos misoginia independentemente de seguirmos estereótipos de feminilidade. Não precisamos nos identificar com coisa nenhuma, não existe entrada e nem saída para o sexo feminino. Ou um ser humano é do sexo feminino, ou não é.
Se mulheres podem ser pessoas do sexo masculino, se não vão ser consideradas como um grupo e defendidas pela única característica que dividem (o sexo feminino), então qualquer homem pode se dizer mulher, inclusive após atacar mulheres com misoginia, nos chamando, por exemplo, de cadelas. E eles vão fazer isso, porque já funcionou para mais de 80 homens só na prisão feminina do Distrito Federal. Imaginem em outras situações.

Imaginem se os homens que se organizam para hostilizar mulheres vão perder a chance de debochar de uma lei de autoidentificação de sexo que foi feita justamente para colocar homens em espaços exclusivos para mulheres.
Imaginem se os homens não vão usar o conceito vago de “ato, conduta, ou conteúdo que discrimine em razão do gênero” para criminalizar aquelas que afirmam o óbvio, que homens não são mulheres.
Se hoje os homens da esquerda estão completamente à vontade para hostilizar mulheres que se opõem à mentira do sexo mutável, usando a desculpa de que seriam “bolsonaristas”, dizendo que “feministas radicais não são gente”, imaginem o quanto eles não vão se divertir assediando feministas.
Não é inocência. É projeto político, é um plano de guerra contra as mulheres.

