As discussões nas redes nos últimos dias no entorno da eleição da Comissão das Mulheres da Câmara dos Deputados parecem ter servido para tirar do armário a indignação que muitas mulheres sentiam com a fraude que vem sendo propagada pelo ativismo trans nas últimas décadas. Mesmo sob intensas acusações de estarem associadas a um ou outro lado do espectro político, mulheres soltaram o verbo para dizer o que durante muito tempo parecia estar engasgado: somos um grupo que, ainda que majoritário em número, é minoritário em representação política, e que em função disso, não tem tido os seus direitos nem os seus limites respeitados.

Algumas mulheres o disseram de forma mais explícita, enquanto outras o fizeram de modo mais ensaboado, temendo represálias daqueles que, investidos do poder, as chamam de “imbeCIS” e “esgoto da sociedade”. O fato é que essa escolha — uma eleição em chapa única de uma comissão que basicamente caiu no colo de um partido que é conhecido por ser intolerante com a divergência política de suas membras quando tratam de temas que atingem mulheres — pegou muito mal.

Se, na semana anterior, se acusava o colunista Jamil Chade de atuar em favor da direita por escrever que “o debate sobre o aborto tornou-se, no governo atual, tema proscrito”, nos últimos dias ninguém se importou com os efeitos que a escolha de uma pessoa do sexo masculino para um cargo dessa relevância para os direitos das mulheres poderia causar. Aparentemente, a discussão sobre os direitos das mulheres só dá “munição para a extrema-direita” quando se faz a favor delas. Quando mulheres, o principal grupo demográfico responsável pela eleição do atual governo, expressam seu descontentamento com decisões políticas que as afetam diretamente, são chantageadas e coagidas a se calar.

O fato é que homens não têm como representar mulheres politicamente, independente das suas melhores intenções. Existe um conflito de interesses milenar entre homens e mulheres que não pode ser superado através da aquiescência destas às vontades daqueles. Somos um grupo grande demais para necessitar dessa tutela, e já está mais do que provado que nossa baixa representação nos espaços de poder não se dá por desinteresse, mas por sabotagem: não se submeter aos interesses dos partidos aos quais são afiliadas torna mulheres personas non gratas. Quando esses partidos restringem essa participação a uma definição ampla demais de “mulher” para caber na nossa realidade, o único resultado possível é [a degradação completa dos nossos direitos.

Se a degradação dos nossos direitos por uma ideia mal ajambrada de identidade feminina, que pode ser acessada por pessoas de qualquer sexo não está em debate — como afirmam certas organizações financiadas com capital estrangeiro e autoidentificadas como feministas —, então também não está em debate a falta de participação política das mulheres nas instituições políticas. O defenestramento das mulheres desses espaços é naturalizado, já que sempre haverá um representante do sexo masculino disposto a ocupar esse lugar. Se ele estiver devidamente paramentado com signos de uma “identidade feminina” e isso for suficiente para legitimar essa subrogação, a participação das mulheres reais nesses espaços se torna, por quem acredita nessa ideia, desnecessária.

É preciso entender que nossa oposição a travestis e homens travestidos não tem a ver com eles serem hetero, bi ou gays. Não tem a ver, de modo geral, com como eles se vestem, nem com as modificações que fazem no próprio corpo. Tudo isso eles podem fazer, independentemente do que qualquer mulher ache. Mas não temos interesse em dialogar ou estabelecer relações com nenhum homem que alegue ser mulher, porque isso é uma mentira. Queremos distância de homens que fazem certo tipo de modulação anasalada, que só se comunicam na linguagem dos fãs de diva pop do Twitter, que acreditam que a vida seja um grande “tombar as inimigas”. Nem por isso deixamos de reconhecer os direitos desses homens de falarem, se vestirem e se portarem como quiserem. Queremos distância das mulheres que são assim também, apesar de não conhecermos nenhuma.

Nossa oposição é aos homens serem legalmente reconhecidos como mulheres, e assim destruírem os direitos das mulheres e ocuparem lugares que deveriam ser nossos: cargos políticos, vagas em times esportivos, medalhas esportivas, cotas e oportunidades em instituições de ensino, banheiros, vestiários, prisões. Homens nos colocam em risco quando podem entrar em nesses espaços. Se um homem pode entrar, todos podem. Foi o que vimos acontecer na Colméia, e que fez com que todos entendessem a gravidade do assunto. Nós somos contra a mentira e a fraude, principalmente porque destrói nossos direitos.

Nós criticamos também a mentira das mulheres que alegam ser homens. Achamos péssimo. Achamos triste que façam modificações corporais irreversíveis. Mas não queremos proibi-las de nada disso, principalmente porque elas não nos colocam em risco. Não vamos impedir ninguém de pular da jangada para a água infestada de jacarés. Mas não podemos deixar os jacarés subirem na embarcação.

Nós acreditamos que as pessoas tenham direito a saúde, moradia, educação, segurança, transporte. Acreditamos que ninguém deve passar fome, que uma jornada de trabalho reduzida é melhor para a população. Que leis trabalhistas devem ser fortes em sua proteção aos trabalhadores. Quem nos acusa de ser de direita porque nosso foco é no sexo feminino está sendo simplesmente desonesto, provavelmente misógino. Quem nos acusa de ser de esquerda está fingindo que não vê o desmantelamento internacional dos direitos das mulheres, que é capitaneado principalmente pela esquerda, mas é ambidestro. Ele ocorre em favor de homens que mentem que são mulheres.

Nós somos feministas. Atuamos na política de base, na ampliação da consciência das mulheres sobre sua realidade e condição. Precisamente por isso, não estamos subordinadas a programa partidário algum. Não nos confundam.

Somos feministas!

One thought on “Somos feministas!

  • March 17, 2026 at 11:09 AM
    Permalink

    Esse manifesto me representa!

    Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *