O PCB de Campinas — partido que não conseguiu eleger nenhum candidato em 2024 — decidiu que uma estratégia para 2026 seria hostilizar feministas, e publicou algumas informações delirantes que gostaríamos de rebater. Teríamos feito isso na própria página, mas quem é incapaz de vencer pelo debate prefere apagar os comentários, então vamos fazer por aqui.

Uma das afirmações falsas feita pelo PCB de Campinas é de que o Feminismo Radical teria preconceito com as pessoas que mentem o próprio sexo, e se que se organizaria ao redor disso. Isso é mentira, como seria mentira dizer que as feministas tem preconceito com homens deficientes ou homens sem teto, ou homens japoneses ou homens que só falam a verdade. Nós só nos organizamos entre mulheres e, evidentemente, como qualquer pessoa deveria fazer, temos desprezo por homens mentirosos. Nem por isso recebemos aqueles que não mentem de braços abertos.

E quanto às mulheres que mentem sobre o próprio sexo? Nós desaconselhamos essa prática, mas temos coisas mais importantes para nos preocupar. Essas mulheres não nos colocam em risco do mesmo modo que os homens travestidos nos colocam em risco; ao contrário, elas se arriscam entrando em lugares masculinos. Não é à toa que não sabemos de nenhum caso em que uma mulher que alega ser homem exigiu ir para a prisão masculina.

Outra afirmação falsa é a de que nós alegamos seguir o materialismo histórico dialético. Vocês não encontrarão nada sobre isso em nenhum material da WDI Brasil, por vários motivos. Como não somos braço da esquerda, nós não temos interesse em trabalhar para avançar os conceitos da esquerda, porque isso seria trabalhar gratuitamente para eles. Para além disso não achamos que a expressão seja boa o bastante para comunicar o conceito, mas que é alienante e talvez um pouco intimidadora. Por esse mesmo motivo não nos dizemos “abolicionistas de gênero”, uma expressão que consideramos vazia e que muitas vezes induz ao erro, como quando as pessoas se dizem simplesmente “abolicionistas”. É claro que acreditamos que mulheres (e homens) podem ter qualquer comportamento, gostar de qualquer coisa etc., mas não achamos que a “abolição de gênero” comunique essa ideia. Mas mais importante que isso, temos a compreensão de que diversas realidades não podem ser mudadas. A realidade de uma menina que foi vítima de estupro de vulnerável, engravidou e foi impedida de abortar, é muito pouco móvel. A realidade da mulher de 60 anos que se prostitui no parque para comprar comida para os filhos também é bastante estática. A realidade das mulheres afegãs nos parece fixa e sem esperança. Nenhuma delas tem paralelo no sexo masculino: meninos que foram vítimas de abuso não correm risco de gravidez. Quando falamos de homens que se prostituem, é só ver como o ex-Ministro da Fazenda se sensibilizou com a situação enquanto era prefeito de São Paulo, mas não deu um pio sobre as mulheres prostituídas da cidade. No Afeganistão são os homens que tornam a vida das mulheres um inferno. E não é com base em comportamento ou em como elas se identificam…

A realidade das mulheres é indissociável de seu sexo, e nossos corpos são fundamentalmente diferentes dos corpos masculinos. Dentro do capitalismo é possível ascender e descender de classe social, mas é impossível mudar de sexo. Quem afirma o contrário age como terraplanista sexual. Não ignoramos que as pessoas possam mudar, por exemplo, de comportamento e aparência. O que nós argumentamos é que a mudança de aparência é, na maioria das vezes, um pastiche — dada a imutabilidade sexual — e que não temos a obrigação de levar como lei a palavra masculina.

Não temos que acreditar no que os homens dizem sobre seu comportamento, mas em como eles se comportam. Depois de quase quinze anos recebendo ameaças de violência desses homens, que além de mentirem sobre o próprio sexo (destruindo assim mecanismos de segurança das mulheres) também dizem que são de esquerda, nós sabemos bem que o melhor que fazemos é manter distância deles. Os homens que mentem o sexo e insistem em invadir espaços de mulheres, acossá-las e intimidá-las estão se comportando como qualquer outro agressor. E praticamente todos os homens que mentem o sexo fazem isso, porque querem nossa validação.

Não daremos essa validação.

Identificar a opressão que os homens exercem sobre as mulheres usando o sexo como base do preconceito, usando contra nós nossa possibilidade reprodutiva, usando a violência sexual e a maior força física como armas não é “sustentar a opressão”, é nomeá-la. Para aqueles que querem seguir tranquilos fazendo manipulação da percepção das mulheres, nomear a opressão oferece risco. É ruim para as organizações políticas (e aqui falamos das de esquerda e de direita), sempre fundadas no masculino, que as mulheres compreendam que formam uma casta sexual. Se elas se levantarem com foco exclusivo em seus direitos, os homens perdem toda essa força de trabalho gratuita. Nós somos a metade do mundo. E eles não querem passar esse café.

O PCB Campinas também afirmou, com palavras fantasiosas, que excluir homens “desloca o foco da luta”. A prepotência dos homens de querer estabelecer qual seria o foco da luta feminista não é surpreendente, mas é sempre hilária. Calem a boca um segundo, não aguentamos mais ouvir a voz de vocês. Vocês são insuportáveis.

O foco do movimento de libertação das mulheres é LIBERTAR AS MULHERES DOS HOMENS. Não interessa se eles estão de calça ou de saia, mas os que atualmente estão de saia oferecem risco para a própria organização de mulheres, já que requerem na lei a inclusão em nossos espaços e direitos.

Quanto à acusação mentirosa de que “compartilhamos plataforma política com a direita”, as feministas radicais estão denunciando a mentira da troca de sexo desde os anos 1970. A direita demorou cinco décadas para receber esse memorando, e muitas vezes é incapaz de compreendê-lo. Em outras, defende abertamente essas falsas identidades, como faz a Damares, como fez o Trump no passado ou como ocorre no Irã.

Por fim, disseram que o feminismo tem que abraçar todos os oprimidos (um minuto de silêncio é tudo o que peço) e nos comentários, enquanto ignoravam a homofobia de um homem travestido (que dizia que feministas radicais são sapatonas, como se isso fosse uma ofensa), concordavam com um perfil que dizia que feministas serão escrachadas caso tentem se infiltrar em, cof cof!, “organizações marxistas-leninistas sérias”.

Então queremos dizer duas coisas para fechar esse texto. A primeira é que não temos interesse de nos organizar com homens em suas “organizações marxistas-leninistas sérias”. A segunda é que, se tivéssemos, não escolheríamos uma organização marxista-leninista séria que não tem sequer um deputado eleito. Se nos juntar aos homens já não fosse ruim o bastante, imagine se iríamos buscar participação entre os partidos mais perdedores, que ainda por cima hostilizam mulheres abertamente? Oh, por favor.

Calem a boca.

Partido de esquerda dobrando a aposta

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *