A juíza Vanessa Cavalieri, em razão do caso dos adolescentes de Santa Catarina que torturaram e deixaram para morrer o cachorrinho Orelha, aponta um dado alarmante em entrevista. Surpresa para ninguém, ela diz que 90% dos casos de violência grave na internet que envolvem adolescentes são cometidos por meninOs. “As pessoas estão divorciadas da realidade”, diz a juíza. “Elas não têm ideia de que o que aconteceu acontece todas as noites em muitas casas do Brasil, com muitos adolescentes com o mesmo perfil desses jovens, todo santo dia. E não é de hoje. […] Me impressiona o quanto as pessoas ainda não entenderam o tamanho do buraco em que nós estamos metidos.”
É um fenômeno semelhante ao dos massacres em escolas: a maioria é cometida por meninos. Um levantamento sobre este fenômeno específico no Brasil de 2023 informa que os agressores em geral são jovens do sexo masculino, em uma faixa etária ampla que vai dos dez até os 25 anos de idade. “De cinco anos para cá, passamos por uma banalização da violência. […] com isso ganhando escala pública, tudo isso faz com que as pessoas que cultivavam esses valores no seu ambiente privado passem a ganhar corpo público”, diz Danila Di Pietro, uma das pesquisadoras responsáveis.
É impossível desviar o olhar e não notar o padrão de violência. Por isso mesmo é importante explicitar o sexo dos envolvidos nesse tipo de crime: ainda que alguns deles sejam, de fato, crianças, esse não é um tipo de violência cometida por crianças em geral, mas por um tipo de criança bastante específico. Não vemos meninas se juntando em grupos com a finalidade de torturar animais. Mesmo que meninas possam eventualmente participar desses eventos, isso não costuma ser um hábito das crianças do sexo feminino. Não são crianças que cometem esses crimes, são meninos. São crianças do sexo masculino.
Podemos estender essa análise para outro fenômeno que acomete somente crianças de um dos sexos. Não são crianças que engravidam e são proibidas de abortar, ou que são forçadas a manter a gravidez — são meninas. Meninos nunca engravidam: seus corpos não possuem as estruturas necessárias para que esse fenômeno aconteça em virtude de sua violação. Ainda que meninos também sofram violência sexual (geralmente perpetrada por homens), eles não têm a possibilidade de sofrer esse conjunto específico de consequências. Do mesmo modo, não são crianças as vítimas de casamento infantil, são meninas. Ninguém em sã consciência quer se casar com um menino.
Enquanto não focarmos em violência masculina, violência perpetrada pelo sexo masculino, continuaremos dando voltas. As vítimas, assim como as dos homens, vão ser quem de mais fraco estiver ao alcance. A diferença entre a violência dos meninos e dos homens é que, para os homens, o acesso às mulheres tem caráter sexual e é legalizado, frequentemente justificado. Os meninos e adolescentes não necessariamente aprenderam isso ainda, mas estão aprendendo, inclusive com o livre acesso à pornografia.
Estejam atentas: o sexo importa. A linguagem importa, ou esconde a importância do sexo através de termos generalistas — “crianças”, “gênero” etc. A violência é majoritariamente masculina. O sexo feminino é vítima diária dessa violência.
Os meninos não nascem violentos e execráveis, mas aprendem esses comportamentos diariamente. Eles testam a violência em animais indefesos e testam em meninas e meninos mais fracos. Se vocês se lembram dos meninos no colégio ameaçando de entrar no banheiro feminino, sabem que, para eles, violar nossa privacidade era só um jogo. Atualmente, esse jogo tomou novos contornos, mas em nenhum dos casos eles são punidos (nem meninos, nem homens que tentam entrar em banheiros femininos) e isso estabelece certos poderes. Eles sentem que podem violentar meninas e mulheres, invadir nossos espaços e degradar nossos direitos porque não há sanção social. O menino que entra no banheiro feminino está apenas “brincando”. O homem que exige entrar no banheiro feminino tem “sentimentos” que são muito mais importantes que a privacidade das mulheres. São as mulheres (e meninas) que precisam entender a violação como um simples inconveniente, e “deixar de ser frescas”.
Mas repetimos, os meninos não nascem assim, eles se tornam desse jeito. Eles podem ser socializados fora da maldade e do abuso. Não esses que assassinaram o cachorrinho Orelha — claro, esses devem ser punidos. É preciso que esse tipo de violência não seja mais aceitável, e esses garotos devem ser feitos de exemplo. É preciso que o menino que tenta violar a privacidade das meninas no banheiro seja advertido e colocado sob fiscalização, sem nenhum caráter de “brincadeirinha”, sem que se diga que é “coisa de menino”, sem a condescendência típica com que geralmente se trata a violência cometida por homens e meninos todos os dias.
A violência masculina precisa ser nomeada e levada a sério.

