O jornal Metrópoles vem cobrindo, desde fevereiro, a situação da prisão feminina Colmeia. Como vocês devem saber, ao menos 86 homens que alegam que “seriam mulheres” estão presos com as detentas. A WDI Brasil escreveu para a Comissão de Direitos Humanos, porque ter homens e mulheres encarcerados no mesmo lugar é um ataque aos direitos humanos das mulheres, a nossa privacidade e segurança, além de ser uma violação da nossa Constituição, de outras leis do país e da Conferência de Genebra. 

Escrevemos esse texto em relação a esses acontecimentos. Queremos apontar mais uma vez que chegamos a esse ponto através de truques linguísticos. Para explicar, usaremos as matérias do Metrópoles de exemplo. 

Antes de tudo, quem nos lê precisa entender que essa é uma questão sexual. Não sabemos quantas mulheres (pessoas do sexo feminino) estão jogando em times masculinos, mas se elas existem, certamente não ameaçam os homens. Do mesmo modo, não sabemos quantas mulheres pediram transferência para prisões masculinas, ou mesmo se alguma delas pediu. Mas sabemos que isso não é um problema para os homens, ou eles já teriam feito bastante barulho.

Apesar da suposta dor psicológica que alegam sentir ao serem reconhecidas como do sexo feminino, as mulheres que alegam que “seriam homens” não estão sendo transferidas para os presídios masculinos na mesma proporção em que os homens que alegam que “seriam mulheres” (e apostamos que elas também não estão cometendo crimes na mesma proporção). Essas mulheres sabem do risco que estariam correndo se fossem encarceradas com homens. 

Deste modo, se os homens travestidos estão sendo violentados em prisões masculinas, essa é uma questão que eles precisam resolver com seus pares em unidades masculinas, não um problema a mais que deva ser levado para as mulheres. Nós já temos muitos. 

Dizemos se de forma condicional, porque de acordo com as informações do Metrópoles, algo nesta conta não está batendo. 


A primeira matéria, escrita por Carlos Carone no dia 10/02/2026, tem como título “Travestis tocam o terror na Colmeia, ameaçam detentas e depredam cela”

Todos os adultos brasileiros sabem o que significa a palavra “travesti”: travestis são homens que se travestem estereotipicamente com elementos considerados femininos. A única pré-condição material para que um travesti exista é que ele seja homem. 

Infelizmente o Metrópoles segue, no corpo da notícia, chamando esses homens de “mulheres”. Isso não é exatamente culpa do jornal, porque de uma década para cá, todo tipo de texto e matéria sobre homens travestidos finge que eles seriam mulheres, ou uma categoria de mulheres. Às vezes, como mencionamos anteriormente, é até omitida a informação de que um homem seria travesti, e ele é simplesmente considerado “mulher”. 

Para que um homem seja considerado “mulher” legalmente, o primeiro passo é que a possibilidade para essa inversão esteja aberta, seja aceita. O segundo é que ele alegue que “seria mulher”, “se sente” “mulher” ou, simplesmente, diga não ser homem. Se um homem faz essa alegação, também chamada de “auto identificação”, ele não pode ser contestado. Contestá-lo seria agir de forma preconceituosa, como vimos acontecer na UnB em 2022 (link 1, link 2) e na UFBA em 2023 (link 1, link 2, link 3)

As pessoas investidas no transativismo defendem que todo e qualquer homem que se “auto identifique” como “mulher” seja legalmente considerado mulher. Isso independe de aparência, vestimenta, trejeitos, procedimentos farmacológicos, médicos, etc. Basta a afirmação dessa suposta identidade. 

É através dessa inversão que a confusão se estabelece, e que as coisas mais absurdas — como 16 estupradores serem transferidos para uma prisão feminina — acontecem. 

Quando o jornal diz que esses homens são travestis, todo mundo sabe que são homens. Quando os chama de mulheres, no entanto, a clareza é comprometida e a ideia confunde os leitores. 

Quando a linguagem muda, ela compromete a realidade.


A segunda matéria, do dia 22/02, também é de Carlos Carone. Essa matéria é pior, porque induz os leitores a achar que existem dois tipos de homens se travestindo: um tipo seria “de verdade” e outro tipo seria “de mentira”. A verdade é que qualquer homem pode se travestir (ou alegar que não é homem), mas nenhum homem se torna uma mulher. Não existe mudança de sexo na espécie humana, e a palavra mulher se refere universalmente ao sexo feminino, não ao comportamento e/ou aparência modificada. A natureza causa exceções, mas elas são exatamente isso, variações sobre características sexuais primárias e secundárias.

Infelizmente o jornal insiste nessa ideia, de que as presas estariam sendo prejudicadas por “travestis fake”. As mulheres ali presas denunciam essa situação desde 2021, e têm sido ignoradas, pois vimos que o número de homens transferidos para a Colmeia só aumentou desde então. 

O que se ignora é que é impossível dizer quais são os travestis de verdade e quais seriam os de mentira. É impossível confirmar ou contradizer o que eles alegam ser um sentimento, posto que o sentimento é subjetivo. O que podemos atestar é que eles são do sexo masculino, ou não precisariam fazer uso da falcatrua da “auto identificação”: ficaria evidente que são mulheres. 

O jornal insiste que são homens mentindo, o que deveria levantar a pergunta: qual homem não está mentindo quando alega que é mulher?  

A informação a respeito de quais homens seriam “travestis de verdade” não aparece na matéria. 


Em 17/05/2026 mais uma matéria é publicada, novamente com autoria de Carlos Carone. Dessa vez a alegação é de que os “travestis de verdade” estariam sendo prejudicados pelos “travestis de mentira”. 

Aqui a coisa muda um pouco de figura. Foquem nos números:

Segundo a matéria, os homens que se “auto identificam” como “mulheres” são 13% da população da cadeia. Em 2023 eles eram 19, em 2026 se tornaram 86, e de todos esses, apenas 01 (um) havia declarado não ser homem antes de ser preso. 

Então, por lógica: se fingirmos por um instante que homens travestidos seriam uma categoria de mulheres (coisa que não acreditamos), só 01 deles seria legítimo nessa situação. Em 86 homens travestidos, 01 estaria falando a verdade. A conclusão é que só 01 homem travestido estaria denunciando o suposto risco, já que os outros 85 travestis estão mentindo. 

Num universo de 86 pessoas, 85 viram uma brecha no sistema e se aproveitaram dela. Esse número é ridículo. Se fosse relativo a cotas, se 85 pessoas estivessem fraudando cotas e apenas 01 estivesse de algum modo qualificada, é bastante provável que as cotas fossem canceladas, ou ao menos que as suas regras se tornassem transparentes e inflexíveis.  

Não são os homens as vítimas dessa situação, afinal de contas, só um deles seria legítimo. As vítimas são as mais de 600 mulheres que tiveram sua privacidade e segurança postas em risco a partir do momento que a primeira pessoa do sexo masculino foi transferida para a Colmeia. Aparentemente suas queixas são menos importantes que as dos travestis mentirosos, mesmo com a Constituição Brasileira vedando o cárcere misto. 

Parece até brincadeira de mau gosto, mas as mulheres da Colmeia, aquelas que iniciaram as denúncias, foram colocadas em segundo plano. O aviso é claro: para acomodar e defender homens mentirosos, é justo colocar mulheres sob risco.


Por fim, em 08/07/2026, esta matéria foi publicada, de autoria de Felipe Salgado. Na matéria, a Senadora Damares Alves (Republicanos) parafraseia o que a WDI Brasil escreveu para a Comissão de Direitos Humanos: 

“pessoas do sexo masculino que se autodeclaram mulheres, incluindo condenados por crimes de homicídio e estupro, teriam sido transferidas para a Penitenciária Feminina do Distrito Federal”.   

A nossa Campanha age em defesa dos direitos das mulheres. Essa defesa é baseada no sexo feminino, e em como as expectativas sobre nossas características naturais são usadas para nos explorar sexual e reprodutivamente. Em como nossos direitos humanos são violados por conta de sermos do sexo feminino.

Não nos interessa o comportamento ou a personalidade dos homens que alegam que não são homens, dos travestis, travestidos ou o que for. Homens não são mulheres, por mais que alguns deles se pareçam esteticamente. Nenhum homem é mulher. Essas são afirmações sobre a realidade, não um preconceito sobre uma suposta categoria de homens. Esses homens são livres para usar as roupas que quiserem, fazer as operações que quiserem, o que não pode acontecer é que eles invadam espaços exclusivos de mulheres. É inadmissível que violem a Constituição e ponham as detentas em risco. 

Note-se que, no raro caso em que um homem se parecesse fisicamente com uma mulher, que conseguisse enganar as pessoas ao seu redor, então ninguém notaria que ele não é um homem. Os direitos das mulheres ainda seriam violados, mas sem que nós soubéssemos ou percebêssemos. Mas como não resta dúvida sobre serem homens, como é visível e não é possível que enganem a sociedade e nos convençam de que o rei não está nu, precisam se apoiar em proteções legais. As mulheres sabem o que está errado, mas estão de mãos atadas, sob a chantagem de que estariam sendo preconceituosas ou cometendo crimes.  

O título dessa matéria dá a entender que o Senado vai discutir casos de “falsos travestis”. Mas não é esse o assunto, isso não consta em nenhum texto oficial sobre a audiência pública. O que se discutirá é a inclusão do sexo masculino em um espaço exclusivo para mulheres. Um espaço feito para garantir a segurança do sexo feminino.


Se esses travestis alegam que não são homens, é irrelevante. Todos os adultos do sexo masculino são homens, e achar que eles são mulheres porque usam vestido ou alegam ter determinados sentimentos é misoginia da braba. Afinal de contas, as mulheres são seres humanos do sexo feminino sem personalidade e aparência pre-estabelecida, e não seres humanos de qualquer sexo com personalidade e aparência pre-estabelecida.

É por isso que as separações em todas as esferas necessárias devem ser feitas por sexo, não por identidade, comportamento e/ou aparência. Esse é o único modo de dar segurança às mulheres, ao sexo feminino. De protegê-las dos homens, do sexo masculino. Em um caso como o das prisões, é a única forma de assegurar garantias constitucionais. 


Se mulheres forem transferidas para uma prisão masculina, elas não colocarão os detentos em risco, são elas que estarão correndo riscos. Mas quando homens são transferidos para uma prisão feminina, qualquer uma das mulheres corre riscos.

Também não devemos esquecer que esses homens são considerados “exatamente iguais às outras mulheres” ou “uma categoria especial de mulheres” através de regras obscuras, que parecem mudar de acordo com a necessidade deles. Por exemplo, esses homens podem se candidatar às eleições na categoria de mulheres.  

Mais que isso, mesmo que a lei seja clara ao falar em sexo, esses homens podem se candidatar através de cotas para mulheres, como denunciamos em novembro de 2020.

Por outro lado temos cotas exclusivas para pessoas que renegam o próprio sexo. 

Em 2023 já havíamos levantado algumas perguntas a respeito desse assunto.

A UNIFESP, por exemplo, oferece essas cotas. Falamos sobre isso em 2024, e reforçamos que há uma expectativa de que as pessoas vão mentir para se beneficiar, já que existe uma banca de heteroidentificação (embora as características usadas pela banca não estivessem claras na época).

Há dois dias a UFPR aprovou uma resolução destinando 3% das vagas para essas pessoas. Apesar da cantilena de que homens travestidos são exatamente iguais às mulheres, imaginamos que a inscrição nessas cotas esteja vedada às mulheres (a menos que reneguem o próprio sexo).

Não existem cotas (e nem deveriam existir) para mulheres que são pobres. Para mulheres indígenas. Para mulheres com deficiências. Nenhuma cota subgrupa mulheres, e nós já dissemos antes que as vagas deveriam começar por refletir a disposição dos sexos na sociedade (50/50).

As cotas focadas em travestis são para “auto identificação”, que só é possível com a negação da realidade. E neste caso, mulheres e travestis estão separados, em diferentes categorias. Mais uma vez, travestis podem usar cotas de mulheres, mas mulheres não podem usar cotas de travestis. E não menos importante: novamente não está claro o que definiria os travestis como legítimos ou ilegítimos.

Se essa pergunta for feita, se as pessoas buscarem honestamente uma resposta,  ou incorreremos em misoginia e subjetividade, respondendo que ““são homens que se comportam como mulheres” ou chegaremos à única conclusão óbvia, ancorada na realidade: nenhum homem, travestido ou não, castrado ou não, feminilizado ou não, é mulher.

Esses homens, que foram inicialmente denunciados por mentir a identidade, terminaram sendo transformados nas grandes vítimas desta situação. Segundo o próprio jornal, a Colmeia tem hoje mais homens condenados por estupro e homicídio que travestis “legítimos”, que no caso seria apenas um.

Então nós gostaríamos de saber do jornal Metrópoles (@metropolespolitica @metropoles), de Carlos Carone (@carloscarone), Larice de Paula, Felipe Salgado, Lilian Tahan (@liliantahan) e Isadora Teixeira (@isadorateixeira.rn): quem são os travestis de verdade e quem são os falsos? Como foi que vocês apuraram essa informação, ou decidiram essa regra?

Nos ajudem a conseguir respostas marcando os autores nos comentários. 

Metrópoles e a linguagem
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